Quando um AVC grave leva a fala, a comunicação não precisa esperar. Neste estudo de caso, a equipe de fonoaudiologia do Serraville conta como gestos, escrita, pranchas de Comunicação Suplementar e Alternativa e o terminal Conversia devolveram autonomia a uma paciente jovem em reabilitação intensiva.

Tela do terminal de comunicação alternativa Conversia exibindo a frase Eu amo minha família, escrita por paciente em reabilitação no Serraville
Escrito pela paciente no Conversia, terminal de comunicação alternativa, durante sessão de fonoaudiologia no Serraville.
Última atualização e revisão: , por Dra. Bárbara Munhoz (CRFa 7-11055-5). Revisão conjunta com Dra. Aline Alves (CRFa 7-9765). Conteúdo informativo. Não substitui avaliação fonoaudiológica individual.

Quando o AVC leva a fala, mas não a pessoa

Em maio de 2025, uma mulher de 39 anos, mãe de duas crianças pequenas, sofreu um AVC isquêmico de tronco encefálico causado por trombose da artéria basilar, uma das formas mais graves de acidente vascular cerebral. Sobreviveu após cirurgia de descompressão e semanas em UTI, mas chegou para a reabilitação com sequelas extensas: traqueostomia, alimentação por gastrostomia, movimentos muito limitados e nenhuma fala.

Ela foi admitida no Serraville em agosto de 2025 para um programa de reabilitação intensiva pós-AVC com internação.

“Quando iniciamos o acompanhamento, a paciente apresentava um quadro neurológico extremamente grave, encontrando-se traqueostomizada, em uso de gastrostomia e com importante rebaixamento do nível de consciência”, contam as fonoaudiólogas Dra. Bárbara Munhoz (CRFa 7-11055-5) e Dra. Aline Alves (CRFa 7-9765), que conduzem o caso no Serraville.

À medida que o quadro clínico melhorou, a avaliação fonoaudiológica revelou algo decisivo: compreensão, cognição e intenção comunicativa estavam preservadas. A paciente entendia tudo. Ela só não tinha como responder.

Afasia, disartria, disfagia: entender o que foi atingido

Um AVC pode comprometer a comunicação de formas diferentes, e diferenciá-las orienta todo o tratamento:

  • Afasia: alteração da linguagem, a capacidade de formular e compreender palavras e frases. Saiba mais no nosso guia sobre sequelas de linguagem pós-AVC.
  • Disartria: alteração motora da fala. A pessoa sabe o que quer dizer, mas os músculos de articulação, voz e respiração não respondem com precisão.
  • Disfagia: alteração da deglutição, que compromete a segurança para engolir alimentos e líquidos. Entenda em disfagia pós-AVC.

No caso desta paciente, os diagnósticos foram estabelecidos em momentos distintos da recuperação.

“Inicialmente, a gravidade do quadro impedia uma avaliação completa da linguagem. Com a melhora clínica, tornou-se possível identificar um quadro de afasia. Meses depois, quando a paciente passou a apresentar emissão vocal e as primeiras tentativas de fala, identificamos também uma disartria”, explica a equipe.

”A comunicação não deve esperar o retorno da fala”

Essa frase, das fonoaudiólogas que conduzem o caso, resume a filosofia que guiou a reabilitação. Em vez de aguardar a recuperação da fala para devolver a comunicação, a equipe construiu a comunicação de forma progressiva, por etapas:

  1. Gestos: respostas de sim e não, apontar, expressões faciais.
  2. Escrita: palavras e frases curtas, conforme o controle motor permitia.
  3. Pranchas de CSA: cartões e pranchas com letras, símbolos e imagens que a paciente indicava.
  4. Tecnologia assistiva de alta tecnologia: o terminal Conversia, introduzido quando a intenção comunicativa já era consistente, mas a fala ainda não era funcional.

Essa progressão segue o que a literatura científica recomenda. A Comunicação Suplementar e Alternativa é reconhecida como abordagem compensatória para garantir comunicação funcional na afasia pós-AVC[1][4], e a diretriz americana de reabilitação pós-AVC recomenda que necessidades de comunicação sejam abordadas desde as fases iniciais do tratamento[3], aproveitando a janela de maior neuroplasticidade dos primeiros meses.

O Conversia na terapia

O recurso de alta tecnologia utilizado neste caso foi o Conversia, um terminal de comunicação alternativa que converte as escolhas do usuário em mensagens e voz sintetizada. Na definição da Lei Brasileira de Inclusão, é um exemplo de tecnologia assistiva: um recurso que amplia a autonomia e a participação de pessoas com deficiência[6].

Paciente em cadeira de rodas utiliza o terminal de comunicação alternativa Conversia ao lado de fonoaudióloga do Serraville
Sessão de fonoaudiologia com o Conversia no Serraville. Identificação da paciente preservada.

A personalização é parte central do trabalho fonoaudiológico com qualquer recurso de CSA.

“A personalização acompanhou cada etapa da recuperação. Inicialmente priorizamos necessidades básicas e, conforme evoluiu, incorporamos comunicação social, rotina familiar, preferências pessoais e objetivos terapêuticos.”

O momento em que a comunicação voltou

Perguntamos à equipe qual foi o momento mais marcante do processo.

“Foi quando ela conseguiu comunicar uma necessidade de forma independente, sem depender da interpretação da equipe ou dos familiares. Naquele instante, voltou a participar ativamente das decisões sobre sua rotina e tratamento.”

Para uma mulher jovem, mãe de duas crianças pequenas, o significado vai além da rotina clínica.

“A perda da comunicação interfere diretamente na identidade, na maternidade e nos vínculos familiares. A comunicação assistiva permite que essa mãe continue participando das decisões, demonstrando afeto e preservando seu papel na família.”

Foi nesse contexto que, em uma das sessões, a paciente escreveu no Conversia a frase que abre este artigo: “EU AMO MINHA FAMÍLIA”.

Paciente sorri ao lado de fonoaudióloga do Serraville durante sessão com o terminal de comunicação alternativa
Momentos de terapia com a equipe de fonoaudiologia. Identificação da paciente preservada.

Tecnologia complementa, não substitui

Um ponto que a equipe faz questão de destacar:

“A tecnologia nunca substitui a terapia fonoaudiológica. Ela complementa a reabilitação, permitindo que o paciente continue se comunicando enquanto recupera funções como deglutição, respiração, voz e fala.”

Enquanto usava a CSA, a paciente seguiu em fonoterapia intensiva, com frequência diária, incluindo:

  • Reabilitação da disfagia: treino de deglutição por consistências progressivas, com transição gradual da alimentação por sonda para a via oral.
  • Treino respiratório e de voz: uso do dispositivo Acapella para coordenação entre respiração e fonação, sustentação vocal e tempo máximo de fonação.
  • Motricidade orofacial: exercícios para lábios, língua e bochechas, com foco em mobilidade, tonicidade e precisão articulatória.
  • Terapia com música: canto de músicas conhecidas da paciente para trabalhar respiração, ritmo e articulação.

A evidência científica sustenta essa combinação: a fonoterapia melhora a comunicação funcional na afasia pós-AVC[2], e estudos recentes investigam justamente o uso de CSA somada à terapia convencional, e não no lugar dela[4]. Hoje, a paciente apresenta vocalizações funcionais crescentes, faz refeições por via oral com acompanhamento e segue em reabilitação ativa, dentro de um plano que combina os principais tratamentos de reabilitação pós-AVC. Cada caso é único e os resultados variam de pessoa para pessoa.

O verdadeiro significado da reabilitação

Encerramos a conversa pedindo uma mensagem para famílias que enfrentam a perda da comunicação de um ente querido após um AVC.

“A comunicação não deve esperar o retorno da fala. Sempre que houver potencial para estabelecer uma forma funcional de comunicação, os recursos de Comunicação Suplementar e Alternativa devem ser considerados precocemente, após avaliação especializada.”

“A maior lição desse caso é que reabilitar vai muito além de recuperar funções. É devolver à pessoa o direito de participar da própria vida, expressar seus sentimentos, fazer escolhas e ser verdadeiramente ouvida. Quando isso acontece, devolvemos autonomia, dignidade e a possibilidade de continuar escrevendo sua própria história. Esse é o verdadeiro significado da reabilitação.”

Reabilitação de comunicação no Serraville

O Serraville é uma clínica de reabilitação intensiva com internação em Dois Irmãos (RS), atendendo Porto Alegre, o Vale do Sinos e a Serra Gaúcha. A fonoaudiologia integra o programa multidisciplinar de reabilitação pós-AVC, junto de fisioterapia, hidroterapia, terapia ocupacional, psicologia e acompanhamento médico diário, com médico disponível 24h.

Se alguém da sua família perdeu a comunicação após um AVC, uma avaliação fonoaudiológica especializada pode identificar o potencial de comunicação preservado e os recursos indicados para cada fase. Conheça o nosso programa de reabilitação pós-AVC, veja como escolher uma clínica de reabilitação de AVC com internação ou fale com a nossa equipe.

Perguntas Frequentes

O que é Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA)?

CSA é o conjunto de estratégias e recursos que complementam ou substituem a fala quando ela está ausente, insuficiente ou difícil de compreender. Inclui desde gestos, escrita e pranchas com símbolos até dispositivos de alta tecnologia com voz sintetizada, como o Conversia. A indicação e a personalização devem ser feitas por fonoaudiólogo após avaliação especializada[5].

Usar comunicação alternativa atrasa a volta da fala?

Não. A CSA não substitui a terapia fonoaudiológica nem impede a recuperação da fala. Ela garante que a pessoa continue se comunicando enquanto a reabilitação de voz, fala e deglutição acontece em paralelo. A literatura científica descreve a CSA como abordagem compensatória que favorece a comunicação funcional durante o processo[1].

O que é o Conversia e como funciona?

O Conversia é um terminal de comunicação alternativa de tecnologia brasileira, desenvolvido pela Colibri Interfaces (Belo Horizonte). Ele transforma gestos em comunicação: pode ser acessado por rastreamento ocular, piscadas, gestos labiais, movimentos de cabeça, acionadores externos ou toque na tela, e converte as seleções do usuário em voz sintetizada.

Para quem a tecnologia assistiva de comunicação é indicada após o AVC?

Para pessoas que ficaram sem comunicação oral funcional, mas preservam compreensão e intenção comunicativa, o que é avaliado pelo fonoaudiólogo. Também é usada em outras condições neurológicas, como esclerose lateral amiotrófica, paralisia cerebral e síndrome do encarceramento. Cada caso exige avaliação especializada individual.

A tecnologia substitui a fonoterapia?

Não. No caso relatado neste artigo, a paciente seguiu em terapia fonoaudiológica intensiva para disfagia, voz e fala durante todo o uso da CSA, incluindo exercícios miofuncionais, treino respiratório com dispositivo Acapella e terapia com música. A tecnologia garante a comunicação enquanto as funções são reabilitadas.

Como o Serraville integra a tecnologia assistiva à reabilitação?

A equipe de fonoaudiologia avalia cada paciente e constrói a comunicação de forma progressiva, começando por gestos e escrita, passando por pranchas de CSA e chegando, quando indicado, a dispositivos de alta tecnologia. Tudo acontece dentro do programa de reabilitação multidisciplinar com internação, junto de fisioterapia, hidroterapia, terapia ocupacional e acompanhamento médico diário.

Relato publicado com autorização da paciente e da família, sem identificação (nome omitido e imagem com rosto ocultado), em conformidade com a LGPD. Conteúdo de caráter educativo: não substitui avaliação médica ou fonoaudiológica individual, e resultados de reabilitação variam de pessoa para pessoa. As citações foram fornecidas por escrito pelas fonoaudiólogas responsáveis e editadas apenas para preservar o anonimato da paciente.

Referências

  1. Russo MJ, Prodan V, Meda NN, et al. High-technology augmentative communication for adults with post-stroke aphasia: a systematic review. Expert Rev Med Devices. 2017.
  2. Brady MC, Kelly H, Godwin J, et al. Speech and language therapy for aphasia following stroke. Cochrane Database Syst Rev. 2016.
  3. Winstein CJ, Stein J, Arena R, et al. Guidelines for Adult Stroke Rehabilitation and Recovery. AHA/ASA. Stroke. 2016.
  4. Bakhshandeh Rad et al. Combining low-technology augmentative and alternative communication with regular aphasia treatment: interim findings of a hospital-based RCT in post-stroke patients. Aphasiology. 2024.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa). Portal de Comunicação Suplementar e Alternativa.
  6. Brasil. Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão), art. 3º, III: definição de tecnologia assistiva.
  7. Conversia. Terminal de comunicação alternativa. Colibri Interfaces e Tecnologia, Belo Horizonte.

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