A disfagia na Doença de Parkinson é uma condição frequente e clinicamente relevante, especialmente nas fases mais avançadas da doença, podendo comprometer a segurança da alimentação, a nutrição, a hidratação e a saúde respiratória. Trata-se de uma manifestação progressiva, relacionada às alterações motoras e de coordenação características do Parkinson, que exige avaliação e acompanhamento especializados.1,2

Em muitos casos, a dificuldade para engolir não se manifesta inicialmente de forma evidente, o que aumenta o risco de complicações como a aspiração silenciosa e a pneumonia aspirativa. Por esse motivo, a identificação precoce e o manejo adequado são fundamentais para preservar a qualidade de vida e reduzir hospitalizações.2,3

Última atualização e revisão médica: — por Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica individual.

O que é disfagia no Parkinson?

A disfagia no Parkinson decorre da combinação de bradicinesia, rigidez muscular, alterações de coordenação e comprometimento dos reflexos envolvidos na deglutição. Essas alterações afetam tanto a fase oral quanto a fase faríngea do ato de engolir, tornando o processo mais lento, menos eficiente e, em alguns casos, inseguro.1,2

Diferentemente da disfagia causada por eventos agudos, como o AVC, no Parkinson a dificuldade de deglutição tende a ser progressiva e relacionada à evolução da doença, podendo inclusive surgir antes de sintomas motores mais evidentes.2

Sinais e sintomas de alerta

Alguns sinais clínicos devem ser observados com atenção em pessoas com Parkinson:

  • Tosse ou engasgos durante ou após as refeições
  • Voz “molhada”, pigarro ou rouquidão após engolir
  • Sensação de alimento parado na garganta
  • Escape de saliva, alimentos ou líquidos pela boca
  • Refeições prolongadas ou fadiga ao mastigar
  • Perda de peso, desidratação ou redução do apetite
  • Infecções respiratórias recorrentes, como pneumonias

O que torna a disfagia no Parkinson diferente?

No Parkinson, a disfagia apresenta características próprias, como a redução da sensibilidade orofaríngea, a lentificação do disparo da deglutição e falhas na proteção das vias aéreas. Essas alterações favorecem episódios de aspiração sem tosse imediata, conhecidos como aspiração silenciosa, que podem passar despercebidos.2,3

Além disso, a resposta à deglutição pode variar ao longo do dia, influenciada por flutuações motoras e pelo efeito das medicações dopaminérgicas, o que reforça a necessidade de avaliação individualizada e acompanhamento contínuo.1,4

Riscos clínicos associados à disfagia no Parkinson

A disfagia não tratada aumenta significativamente o risco de pneumonia aspirativa, além de desnutrição, desidratação e piora funcional global. Estudos indicam que complicações respiratórias relacionadas à aspiração estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade em pacientes com Parkinson.3,5

Por esse motivo, diretrizes internacionais recomendam vigilância ativa da deglutição e intervenções precoces sempre que surgirem sinais clínicos sugestivos.4,6

Avaliação da deglutição no paciente com Parkinson

A avaliação da disfagia é realizada por fonoaudiólogo especializado e inclui exame clínico detalhado da musculatura orofacial, coordenação respiratória e sinais de risco durante testes controlados de alimentação. Quando necessário, exames instrumentais, como a videofluoroscopia ou a endoscopia da deglutição (FEES), auxiliam na definição diagnóstica e no planejamento terapêutico.2,6

O cuidado é integrado ao acompanhamento médico, considerando o estágio da doença, o ajuste medicamentoso e outras condições clínicas associadas.

Tratamento da disfagia na Doença de Parkinson

O tratamento é individualizado e deve ser integrado ao plano global de reabilitação do paciente, podendo incluir:

  • Estratégias posturais e compensatórias para maior segurança ao engolir
  • Exercícios terapêuticos para fortalecimento e coordenação muscular
  • Adequação das consistências de alimentos e líquidos, com suporte nutricional
  • Orientação a familiares e cuidadores
  • Acompanhamento multiprofissional contínuo

Evidências científicas demonstram que intervenções estruturadas podem reduzir complicações e melhorar a eficiência da deglutição em pacientes com Parkinson.4,5

Disfagia e reabilitação integrada no Parkinson

A disfagia frequentemente coexistente com alterações de fala, mobilidade, cognição e autonomia funcional. Por isso, apresenta melhores resultados quando manejada dentro de um programa de reabilitação neurológica integrada, com atuação coordenada entre equipe médica, fonoaudiologia, fisioterapia, nutrição e enfermagem.2,6

Quando procurar avaliação especializada?

A avaliação deve ser considerada sempre que houver engasgos, tosse após refeições, alterações vocais após a deglutição, perda de peso, desidratação ou infecções respiratórias recorrentes em pessoas com Parkinson. A abordagem precoce contribui para prevenir complicações e preservar a qualidade de vida.3,4

Perguntas Frequentes (FAQ)

A disfagia é comum na Doença de Parkinson?

Sim. A disfagia é uma manifestação frequente no Parkinson, especialmente nas fases mais avançadas, podendo ocorrer mesmo antes de sintomas motores evidentes.1,2

A disfagia no Parkinson pode evoluir com o tempo?

Sim. Trata-se de uma condição geralmente progressiva, relacionada à evolução da doença, o que reforça a importância do acompanhamento contínuo.2

A disfagia pode causar pneumonia?

Sim. A aspiração de alimentos ou líquidos pode levar à pneumonia aspirativa, uma das principais complicações associadas ao Parkinson.3,5

Conclusão

A disfagia na Doença de Parkinson é uma condição comum, progressiva e potencialmente grave, mas passível de manejo adequado. A avaliação precoce, o acompanhamento especializado e a reabilitação integrada são fundamentais para reduzir riscos, preservar a segurança alimentar e manter a qualidade de vida do paciente.1,2,4

Referências Científicas

  1. Kalf JG, de Swart BJ, Bloem BR, Munneke M. Prevalence of oropharyngeal dysphagia in Parkinson’s disease: a meta-analysis. Parkinsonism & Related Disorders. 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22314128/
  2. Manor Y, Giladi N, Cohen A, Fliss DM, Cohen JT. Validation of a swallowing disturbance questionnaire for detecting dysphagia in patients with Parkinson’s disease. Movement Disorders. 2007. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17534944/
  3. Troche MS, Brandimore AE, Focht Garand KL, Hegland KW. Swallowing and cough function in Parkinson’s disease. Chest. 2014. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24322590/
  4. Clavé P, Shaker R. Dysphagia: current reality and scope of the problem. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology. 2015. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26089364/
  5. Pflug C, et al. Critical dysphagia is common in Parkinson disease and occurs even in early stages: a prospective cohort study. Dysphagia. 2018. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28913792/
  6. American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Adult Dysphagia – Parkinson’s Disease. https://www.asha.org/practice-portal/clinical-topics/adult-dysphagia/